Maria Rita Kehl sobre depressão e carência
Peguei para ler a entrevista da Maria Rita Kehl, psicológa, para a revista Caros Amigos. Fala sobre várias coisas, mas o que mais me interessou foi o diagnóstico de que há uma mania de depressão na sociedade urbana e consumista contemporânea, onde a obrigação de ser, ou melhor de parecer feliz oprime cada vez mais a mente das pessoas perdidas nesse mundo de ideias fracas, onde a busca (muitas vezes a compra) de coisas que dêem prazer e satisfação imediatas aparece como um imperativo, válvula de escape dos indivíduos:
O importante é que no caso das depressões, numa sociedade em que a moral social é a moral da alegria, do gozo, da farra, não é a moral até a primeira fase do capitalismo, que até os anos 1950, e isso combinou também com o protestantismo, era a moral do adiamento da gratificação, sacrifício, esforço, sobriedade, tudo que a gente conhece hoje em dia de literatura. E a moral que mudou muito rapidamente depois dos anos 60, não por culpa dos movimentos dos anos 60, mas pela tremenda plasticidade do capitalismo, do boi eu aproveito até o berro, do homem eu aproveito até o berro, derramo o que não queremos, o que queremos é sexo livre, independência. E o sistema fala “oba, vamos devolver isso na forma de mercadoria”. E hoje nós nos beneficiamos, mas também a sociedade de consumo bombou depois dos anos 60. Então, numa sociedade como essa em que você moralmente se sente obrigado a estar sempre muito bem, qualquer tristeza você identifica como depressão. [...] Então, o que é a força psíquica, a chamada vida interior? É trabalho permanente, desde o bebezinho ali que a mãe não chegou na hora e ele estava com fome e teve que esperar um pouquinho, o psiquismo é isso, trabalho para se enfrentar a dificuldade, enfrentar conflitos, suportar crises, suportar desprazer em momentos, porque não dá para ter prazer o tempo todo, isso é psiquismo. A ansiedade diz “não enfrenta conflitos, não enfrenta porque você vai ficar um tempo meio confuso, meio improdutivo, toma o remédio e vai em frente”. Vai se criando uma vida sem sentido.
Outro ponto interessante da entrevista é quando ela fala do trabalho dela como psicanalista na Escola Nacional do MST. Como a sociabilidade entre os integrantes daquele movimento é bastante diversa da sociabilidade burguesa e de classe média comum aos seus pacientes corriqueiros, Maria Rita Kehl ressalta como lá as pessoas não sofrem de carência afetiva como é comum encontrar nos consultórios
o que mais tem na clínica psicanalítica das cidades? Qual é a questão mais banal? Não estou banalizando os meus clientes, estou falando que tem uma questão que é banal: me ama ou não me ama, papai gostou de mim, mamãe não gostou de mim, um gostou muito, outro gostou menos, eu era o predileto, meu irmão que era predileto, gostava de mim, não gostava de mim, meu namorado gosta ou não gosta, ai não tenho um homem então sou uma porcaria porque não tenho homem, ah não tenho mulher. Isso aí eu nunca ouvi lá, em três anos e pouco já. O valor do sujeito não está atrelado a se o outro gosta dele ou não
Isso me animou a procurar ler mais sobre esses temas psicológicos ligados à crise da cultura do capitalismo tardio, tanto como meio de se pensar em formas de superação histórica e de enquanto indivíduo, esquivar dos ideais vazios de felicidade do nosso tempo, que produz produz gente fraca, insatisfeita e carente, justamente vendendo imagens mostrando o contrário: pessoas lindas, belas e fortes, livres e felizes, porém tão reais quanto um lanche de fast-food.
O caminho da liberdade deve passar necessariamente por auto-conhecimento, por auto-fortalecimento. Enquanto as pessoas projetarem para fora de si próprias sua completude, estarão condenadas a serem eternamente um saco vazio, um buraco sem fundo, a serem “virgens existenciais” (essa ótima expressão ouvi do Lobão em uma entrevista uma rádio, referindo-se a modinha emo-deprê-fofinha do rock atual).
Para ouvir: Seletores de Frequência








Podemos pensar como que é possível um ser humano se relacionar bem com o outro quando não se relaciona bem consigo mesmo. E se relacionar bem consigo mesmo parece, para mim, estar em paz nos momentos que está sozinho, nos momentos em que está acompanhado, nos momentos em que paramos para produzir algo que diga respeito à nossa existência. Acredito que na ausência dessa tranquilidade que vem de dentro é que paramos para se preocupar profundamente com a opinião que vem dos outros. Não que ela não seja importante, aprender a aconselhar, aceitar e receber críticas faz parte do desenvolvimento de qualquer pessoa, mas quando despositamos todas as nossas expectativas em algo – pode ser uma mercadoria – ou alguém – mãe, pai, pessoas com quem nos envolvemos – que está fora de nós mesmos, é como uma lacuna que nunca poderá ser preenchida. Me parece que apenas quando conseguimos ser livres é que se torna possível estar bem ao lado do outro, e apenas nessa situação é que pode se contruir um sentimento verdadeiro entre as pessoas, que não passe por uma necessidade da presença do outro, ou por uma carência afetiva.